ADVENTO, NATAL E MISERICÓRDIA.

O período do Advento se aproxima do fim trazendo, mais uma vez, as comemorações natalinas. O Natal do Senhor é um período em que as pessoas se tornam ou, pelo menos, se tornavam, mais fraternas, mais próximas umas às outras, mais irmanadas. Hoje em dia, porém, com a comercialização que se abateu sobre vários aspectos da vida humana, muito do frescor do Natal, da sua atmosfera tão peculiar, estão deixando de existir. O homem, mais uma vez, está abandonando o Deus verdadeiro para se inclinar diante de bezerros de ouro. Entretanto, muitos ainda procuram manter o verdadeiro espírito do Natal

Muitas mensagens surgem nesta época evocando a caridade, a fraternidade, a tolerância e a paz. Poucos, porém, procuram viver o que dizem tais mensagens. É urgente que procuremos vivenciar o que verbalizamos tão facilmente, procurando transformar nossas vidas conforme o que falamos, lemos e transmitimos. Os votos de Natal e Ano Novo precisam se transformar em realidade e vivenciados no dia a dia. Assim sendo, o sentido de misericórdia está intimamente ligado a este período.

Cristo é a face da misericórdia do Pai revelada em Belém, vez primeira, que atingiu o seu clímax no Calvário. Impossível ao homem, decaído pelo pecado, voltar à amizade com Deus por si só. Por isso, o Verbo eterno “se fez carne e habitou entre nós”, como lemos no prólogo do Evangelho de João. Tão grande é a misericórdia de Deus que Ele não se contentou em deixar o homem à mercê do pecado e da morte, mas quis, também, experimentar a morte, apesar de não possuir pecado nem nada que o fizesse merecedor de tal castigo. Ele fez-se a vítima expiatória pelos nossos pecados por amor e um amor tão misericordioso que não titubeou em entregar até a última gota de sangue para alcançar a nossa salvação.

O Advento e o Natal nos remetem à misericórdia do Pai, pois foi na humildade da manjedoura que essa misericórdia se mostrou aos homens. Chamou os homens a si e alguns responderam afirmativamente. Os pastores, largando os rebanhos nos campos, foram verificar a mensagem do anjo. Os magos, abandonando a sua terra, correram pressurosos em busca do rei anunciado pela estrela. Mas Herodes não respondeu dessa forma. Ao contrário, dissimulado, tentou eliminar a “luz que brilha nas trevas”, uma vez que “as trevas não a receberam”. A misericórdia, assim, fica impedida de agir.

Ao longo da história do cristianismo, vemos a misericórdia agindo e chamando. Chamou os apóstolos, que largaram as redes e os barcos, a banca de publicano, as atividades mundanas. Chamou homens e mulheres ao deserto, aos claustros, aos conventos, à vida religiosa e sacerdotal, à vida em santidade sob quaisquer estados em que vivamos. E vislumbramos Paulo, atingido pela graça divina que é a misericórdia, converter-se de perseguidor em apóstolo dos gentios. E vemos Agostinho, Justino e outros que, buscando a verdade nas filosofias humanas, a encontraram nas páginas do Evangelho. E chegamos a Francisco de Assis que, tocado pela misericórdia, se dirige àquele que o chamou: “Senhor, que queres que eu faça?” E chamou muitos outros e continua chamando. Mas, “muitos são os chamados e poucos os escolhidos”.

Impossível falar-se em misericórdia sem nos lembrarmos da parábola do filho pródigo. Abandonando a casa paterna, como tantas vezes o fazemos, o filho viu-se abandonado por todos e desejou voltar, encontrando o pai de braços abertos à espera. Mas o primeiro passo foi dele. Deus está à nossa espera, pacientemente aguardando que mudemos de vida e procuremos os seus braços misericordiosos. Mas respeita nossa liberdade. Ele, a cada dia, indica-nos o caminho do retorno com sinais que, muitas das vezes, deixamos de perceber. Adiamos, assim, nossa conversão. Até o último momento, porém, Ele nos aguarda. Ele já nos indicou ser o caminho, a verdade e a vida. Só precisamos trilhar esse caminho para alcançarmos a vida verdadeira. Não é mais a estrela ou os anjos que nos indicam por onde seguir. É o próprio Cristo nascido em Belém que está diante de nós, pronto para nos carregar em seus braços como à ovelha ferida, desde que nos deixemos tocar por Ele e saibamos abrir os nossos corações. Caso contrário, seremos como a semente caída à beira do caminho.

Não façamos como Herodes, como os fariseus que, surdos e cegos à verdade que se apresentava diante deles, preferiram não aceitar a misericórdia divina que exige, em troca, apenas que mudemos o nosso agir. Lembremo-nos, ainda, da mulher adúltera. Se ninguém a condenou, ela ouviu do único que pode, realmente, julgar: “Vá e não peques mais”. As portas da misericórdia se abriram como o Natal do Senhor. Continuam abertas em cada confessionário quando ouvimos as palavras da absolvição. Foram escancaradas pelo amor infinito de Deus. Saibamos atravessá-las rumo a tão misericordioso Pai, voltando à sua casa onde seremos recebidos com festa. Que o nascimento do Salvador reavive, em cada um de nós, esse desejo sincero de conversão e esperança segura na misericórdia do Pai.

Raimundo César de O. Mattos, ofs

                                                                      

 

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