AS MÃOS DA SENHORA DA GLÓRIA.

Mais uma vez a cidade de Valença veste-se de alegria para as comemorações de sua excelsa padroeira que “abençoa a cidade feliz”. Nestes dias, em especial a 15 de agosto, multidões acorrem à sua catedral buscando um consolo, uma palavra de esperança, um reencontro com antigos amigos ou familiares que foram viver longe daqui mas que, a cada ano, dentro das possibilidades de cada um, procuram retornar ao rincão natal, à casa da mãe que a todos acolhe do alto de seu trono de glória. No entanto, um detalhe passa quase que despercebido de todos: as mãos da Senhora da Glória.

            Contemplando a sua imagem, podemos notar que suas mãos indicam duas direções – uma voltada para o alto; outra, para baixo. Alguns até já procuraram interpretar essa posição mas acreditamos que podemos entender de uma maneira um tanto diferente de tudo o que já foi dito.

            A mão que se volta para o alto parece remeter à passagem evangélica na qual Jesus admoesta seus discípulos: “Buscai primeiro o reino dos céus e a sua justiça” (Mt 6, 33). De fato, desde o primeiro instante de sua existência e, principalmente, a partir da Anunciação, Maria não teve outro ideal de vida que não fosse buscar as coisas de Deus. Completando, por sua vez, o que Jesus dissera no Evangelho, São Paulo ainda conclama a todos que “se foram ressuscitados com Cristo, procurem as coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus” (Cl 3, 1). E o que mais Maria poderia indicar-nos que não fosse exatamente tal ideal, demonstrando, em sua imagem que sobe aos céus levada pelos anjos, o caminho que é seu próprio Filho, primogênito dentre os mortos e primícias dos que adormeceram, ainda segundo São Paulo (cf. 1 Cor 15, 20)?  Sendo Ele mesmo o caminho que leva ao Pai, por este caminho deveria seguir, antes de todos, sua própria Mãe, aquela que encontrou graça diante de Deus e pela qual essa mesma graça foi devolvida aos homens na pessoa de Jesus Cristo.

            São Bernardo, em seu sermão sobre a Assunção, afirma que “a nossa Rainha nos precedeu; nos precedeu e foi recebida com tanta glória que, com confiança, os servos podem seguir a Senhora…” (São Bernardo de Claraval, 2º. Sermão sobre a Assunção). E, comparando com o evangelho da Anunciação, ele fala sobre o duplo acolhimento: “Hoje, ao entrar na cidade santa, foi recebida por aquele que outrora ela recebera quando ele entrou neste mundo. (…) Creio que o acolhimento que celebramos receba o valor do outro acolhimento, e até, por causa da inestimável glória daquele (acolhimento), se reconhece que este (acolhimento) também é inestimável”. Por este sermão, em que São Bernardo fala da dúplice assunção, podemos antever a segunda posição das mãos de Maria em sua glorificação.

            Uma aponta para o alto, onde Cristo está sentado á direita do Pai. Outra, entretanto, volta-se para a terra. Que interpretações poderíamos tirar daí? A mão da Mãe que não se esquece dos filhos que ficaram a peregrinar neste vale de lágrimas, apontando-nos para que seu Divino Filho não nos esqueça, se tal fosse possível? A mão misericordiosa que procura puxar-nos do oceano de pecados em que estamos mergulhados, para a salvação eterna? A mão que procura arrancar-nos dos erros desta vida, lembrando-se das palavras do já citado São Paulo? A mão da misericórdia de Deus que tomou forma em Maria Santíssima? Aqui, atrevemo-nos a fazer uma outra comparação. Se Cristo é a Palavra que se fez carne, Maria bem poderia ser exatamente a Misericórdia que tomou forma humana na Mãe de Deus.

            Ao apontar para o alto, mostra-nos o caminho que é seu Filho que primeiro subiu ao céu de onde veio para nos salvar. Ao voltar-se para baixo, busca nossas mãos para levar-nos consigo  a fim de entrarmos, com ela, na glória que nos foi reservada pelo amor infinito de Deus que foi acolhido por Maria em seu seio e a acolheu no seio do paraíso em sua assunção.

            Duas mãos. Uma pela qual desceu a misericórdia; outra, através da qual é indicado o único caminho certo pelo qual devemos viver. Que nestes dias em que contemplamos, de maneira mais atenta, a imagem da Rainha de nossa cidade, exaltada em corpo e alma na pátria celeste, procuremos olhar as mãos da Senhora da Glória com confiança, na certeza de nossa própria glorificação, filhos de Deus que fomos resgatados pela misericórdia infinita do Pai,  pelo Filho, no amor do Espírito Santo.

 

Raimundo César de O. Mattos, ofs

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